A dificuldade ou a impossibilidade de chegar em áreas de pesca vem preocupando a população.

“Sem peixe nós não sobreviveremos. O nosso povo sempre viveu do peixe nesta região. Eu fico triste quando ouço que o peixe vai acabar. Nós vivemos do peixe, do rio, por isso somos os Yudja, que quer dizer “os donos do rio”, e nós sempre sobrevivemos do rio, que pra nós é tudo. Enquanto existir o Xingu nós estamos lutando. Vamos até o fim. Quando ele morrer a gente morre junto. ” Gilliarde Juruna

fogueira

  • Linha base de monitoramento de desembarque pesqueiro e consumo de proteína animal construída entre setembro de 2013 e setembro de 2016.
  • Relatórios de monitoramento mensal publicados em parceria com a Plataforma PESCA+, e coletados por meio do aplicativo de celular de monitoramento pesqueiro ( http://pescamaisbrasil.com)

A pesca é a principal atividade para a subsistência dos Juruna, conforme Atlas dos Impactos da UHE Belo Monte sobre a pesca. Segundo dados dos dois anos inciais do monitoramento independente dos Juruna, da produção total de 4.469 kg de pescado, 98% é para alimentação e 2% para comercialização. Em síntese, do recurso alimentar consumido, o peixe representa 55% das refeições.

O peixe também é uma importante alternativa de geração de renda para as populações da Volta Grande, incluindo a pesca ornamental realizada pelos Juruna. A dificuldade ou a impossibilidade de chegar em áreas de pesca vem preocupando a população.

“A gente levava uma hora pra chegar nos locais de pesca, e agora demoramos o dobro. Tem local que a gente não tem mais acesso, porque a água diminuiu muito e não dá mais pra passar”

Natanael Juruna

O Projeto Básico Ambiental do Componente Indígena (PBA-CI) iniciou suas atividades de monitoramento somente no segundo semestre de 2014, o que não permitiu o detalhamento necessário sobre o consumo de peixe e a comercialização das principais espécies que caracterizam a atividade pesqueira dos indígenas Juruna na Volta Grande, no período que antecedeu o barramento do rio.

Desde a implementação da hidrelétrica, os indígenas da aldeia Mïratu contam que importantes pontos de pesca foram extintos ou comprometidos com o início da construção de Belo Monte e que os peixes estão morrendo ou doentes.

Em 2013, a AYMIX, em parceria com o ISA e a Universidade Federal do Pará (UFPA), passou a fazer um monitoramento independente na região. O estudo é realizado pelos pesquisadores indígenas e envolve um levantamento mensal sobre as dinâmicas da pesca e consumo alimentar das famílias da aldeia. Esses dados são importantes para desenhar a linha base para comparar a situação antes do barramento com as transformações que irão ocorrer.

De acordo com o Atlas da pesca importantes áreas de pesca foram extintas ou comprometidas com o início da construção de Belo Monte, em decorrência de impactos como iluminação artificial dos canteiros de obra, uso de explosivos, lançamento de ensecadeiras (barramento provisório do rio), assoreamento de cursos d’água e aterramento de áreas do rio. Com o barramento definitivo do rio, em novembro de 2015, novos impactos vem se configurando e tendem a se agravar decorrentes da diminuição da vazão do rio e de conflitos por áreas de pesca, já que muitos pescadores que perderam suas áreas em Altamira e outras regiões estão avançando para pescar na Terra Indígena, gerando pressão no território.

A captura dos peixes está intimamente ligada aos ciclos de cheia e vazão do rio. Tanto o pacu como a matrinxã, por exemplo, se alimentam de frutos provenientes das áreas alagadas e não terão tais ambientes disponíveis com a alteração da vazão do rio.

Tanto os impactos da fase construtiva quanto os que se configuram a partir do desvio do rio, apontam para um contexto de grandes mudanças nos padrões da atividade pesqueira e nos modos de vida das populações indígenas e ribeirinhas.

“Sem peixe nós não sobreviveremos. O nosso povo sempre viveu do peixe nesta região. Eu fico triste quando ouço que o peixe vai acabar. Nós vivemos do peixe, do rio, por isso somos os Yudja, que quer dizer “os donos do rio”, e nós sempre sobrevivemos do rio, que pra nós é tudo. Enquanto existir o Xingu nós estamos lutando. Vamos até o fim. Quando ele morrer a gente morre junto”

Gilliarde Juruna

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